
Foda-se a Eloá
21 Outubro, 2008(Antes que você que está lendo isso comece a me apedrejar, leia o restante do texto)
Esta semana o Brasil inteiro parou e chorou com o trágico desfecho do seqüestro das meninas Eloá e Nayara, em Santo André. Muitos pararam diante da TV para acompanhar as negociações que duraram dias, e que no final das contas resultaram com a morte da ex-namorada do seqüestrador Lindemberg e com sua amiga baleada no rosto. A mídia inteira não falou em outra coisa.
Agora eu pergunto: quem era Eloá? Com exceção de amigos e familiares, ninguém nunca havia ouvido falar em Eloá. Não sabemos seus gostos, suas preferências, seus defeitos, se era uma boa pessoa, ou uma filha da puta. Você sabe se ela já roubou, matou, se prostituiu? Se usava drogas? Se era uma piranha? Não, não sabe. Também não sabe se era uma santa, se cuidava dos leprosos, se dava aula de alfabetização a velhinhos. E ainda assim o Brasil não pára de repetir seu nome com propriedade para falar que sua morte foi um absurdo, que a polícia errou ao enviar a amiga de volta ao cativeiro, que deviam ter matado o Lindemberg quando tiveram a oportunidade.
E como um país inteiro se mobiliza por uma pessoa que não conhece? Simples, graças a uma das invenções mais traiçoeiras que o homem já criou: a mídia. Televisões, rádios, internet, jornais… TODOS só falavam de Eloá, Nayara e Lindemberg em suas chamadas. “Terror em Santo André”, “Rapaz seqüestra ex-namorada e amigos”, “Seqüestrador pede prato de comida”, “Lindemberg diz que é o príncipe do gueto”, “Confirmada morte cerebral de Eloá”, “Pais de menina assassinada liberam doação de órgãos”. E o país inteiro acompanha, vibra com os reféns libertados, derrama lágrimas quando vem o desfecho cruel. A mídia tem o poder de glamourizar o que quiser, principalmente a televisão. Então é como se estivéssemos assistindo um filme em que o final não foi feliz.
A imprensa brasileira é tão sensacionalista que chegamos ao ponto de uma apresentadora de programa de fofoca entrevistar o seqüestrador AO VIVO DURANTE O SEQÜESTRO. Isso mesmo. A Sonia Abraão conseguiu uma “exclusiva” com o seqüestrador diretamente do cativeiro, em poder das reféns. O que esta besta teria pra falar de construtivo? Ela fez curso na SWAT? É negociadora do GEAT? Mas dá audiência, isso que importa!
Este sensacionalismo é um dos responsáveis por esta sociedade de merda, hipócrita e falsamente moralista que temos no Brasil. João Hélio, menina Isabela, agora é a Eloá, um dia foi o ônibus 174, a menina do metrô… Qual será o próximo? Não sabemos, mas é certo que virá. O Brasil vai parar na frente da TV de novo e irá se “comover”. Comover é o caralho! A comoção nacional não passa de um “Nossa, você viu que horror o caso do seqüestro das meninas em Santo André?” ou de um “Onde esse país vai parar?”. Mas a Eloá? Foda-se a Eloá! O que a sociedade gosta de assistir é o show, e a Eloá é só a mocinha da vez. O que brasileiro gosta de ver é o bandido apontando a arma pra mocinha. A polícia com seus fuzis e metralhadoras. Portas explodindo, soldados entrando pela janela, viatura com a sirene ligada. Hollywood em solo tupiniquim. E quando o desfecho é trágico, prato feito: está feito o mártir.
Se realmente houvesse comoção, se as pessoas realmente ficassem incomodadas com os seqüestros, assaltos, assassinatos, levantariam a bunda do sofá e iriam reclamar, protestar, se exaltar, exigir mudanças. Mas ninguém faz porra nenhuma, como em tudo nessa merda desse país. A sociedade brasileira é talvez a mais passiva do mundo. O brasileiro é bundão, apanha e fica calado. Centenas de desocupados saem de casa pra acompanhar o seqüestro de perto, pra ver o prédio de onde caiu a pobre menina, pra ir no velório do João Hélio. Mas ninguém se levanta pra reclamar da CPMF, do mensalão, do desemprego, do analfabetismo, da violência. “Não é da minha alçada”, “o governo tem que fazer alguma coisa”. É tudo que falamos.
O povo aqui adora falar. Assistir e falar. Será que o brasileiro está comovido ou entretido com a violência? Você sabe a resposta. A mídia também. E está fazendo direitinho seu papel de idiotizar a população.
Ted Danson
Inspirado e baseado no excelente texto de Felipe Neto, do blog Controle Remoto.